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Perfil: Fernando Kuroda, do Bueno

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fotos: Rafael Salvador

Campeão de sumô profissional do Japão, Fernando Kuroda* é quem comanda os restaurantes Bueno e Mini Bueno. Diz que prefere não ser chamado de chef, porque sua formação em cozinha vem basicamente da experiência. É justamente essas experiências que fazem com que os clientes voltem, tanto para comer como para ouvir as suas histórias.

Kuroda viveu em Tóquio por 12 anos. Foi para lá adolescente e teve uma rápida ascensão no esporte. Alcançou a tão sonhada elite do sumô profissional e passou por duras batalhas nos dohyos e fora deles.

Por incentivo de seu pai, treinador de sumotoris, Kuroda começou cedo e, aos quatro anos, já estava subindo nos dohyos. “O sonho do meu pai era ser lutador de sumô, por isso, ele acabou me incentivando desde pequeno”, conta. Começou a participar de campeonatos amadores, até que um dia, conheceu Daisuke Shiga. “Ele já era um dos melhores no Japão e quando veio para cá, eu ganhei dele”, lembra Kuroda. Daisuke, cujo nome de lutador viria a ser Tochiazuma, o incentivou a treinar no Japão,  na academia de seu pai – Tamanoi Oyakata (treinador). “Quando eles me convidaram para ir ao Japão, eu fiquei preocupado por não ter porte de sumotori.  Eles disseram que tinham outros lutadores do meu tamanho, mas quando eu cheguei lá, eram todos bem maiores que eu”, revela.

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Quadros com fotos do ex-lutador ficam expostos no balcão
A sua rotina de treinamentos era intensa; como novato, tinha que se adaptar à rigidez das hierarquias. “Lá era pior que exército. Achei que escaparia do serviço militar daqui do Brasil, mas lá era muito pior”, brinca. Ele explicou que a forma de falar e tratar os veteranos tem que ser sempre muito polida e que nenhum deslize era perdoado. Além disso, tinha que ajudar com a limpeza e tarefas na cozinha. Primeiro, aprendeu a rotina da pia, lavando os pratos, para então aprender a cortar os alimentos e, depois, a preparar a comida.

No momento em que havia decidido ir ao Japão, Kuroda disse que sua mãe o alertou que, se fosse, deveria ficar por pelo menos cinco anos, porque se voltasse antes seria uma vergonha para a família.  Ele seguiu os conselhos da mãe, passou por todas as dificuldades de treinamento, até que foi subindo, vencendo campeonatos e chegou ao patamar mais alto da categoria de base em dois anos (com apenas 17 anos). “Quando você é campeão, a situação inverte. As pessoas é que servem para você”, conta. A rotina começou a mudar e, apesar de o salário ainda ser baixo, frequentava bons restaurantes, ia a festas a convite dos patrocinadores e já ganhava reconhecimento profissional. Seu nome, então, era Wakaazuma, o jovem que vem do leste.

Continuou lutando e treinando até alcançar a tão sonhada elite da profissão. “Uma das lutas mais marcantes de que me lembro foi contra um havaiano que tinha o dobro do meu tamanho. No momento, fiquei assustado, mas tinha que ir à luta e fui em frente”.

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“Meus amigos que vivem no Japão disseram que eu parei na época certa. O sumô já não tem mais tanta participação quanto tinha antigamente”. Depois de doze anos no Japão, o sumotori resolveu voltar e disse que, apesar do convite de amigos para ficar, sabia que aqui teria mais oportunidades. “Eu quis investir em um restaurante porque sabia que podia apresentar algo diferente ao paladar brasileiro, algo que tinha domínio”. Foi assim que surgiu a proposta do Bueno, de servir o prato que sabia fazer de cor e salteado: o chankonabe, comida dos sumotoris.

Chankonabe, o prato dos lutadores de sumô

Receita: Chankonabe

*Atualizado em 19/02/2018: o chef Fernando Kuroda não é mais o chef do restaurante Bueno.