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O Japão num Bolinho de Arroz

roberto 2
Para o paladar do brasileiro, o arroz japonês é sem gosto e grudento. Passados 8 anos de vida no Japão, no entanto, aprendi a apreciar o shiro-gohan, o arroz branco nosso de cada dia.

Contudo, minha relação com o alimento alcançou um novo estágio depois do grande terremoto seguido de tsunami de 2011.

Um ano depois da tragédia, visitei a região mais afetada para uma reportagem. Na ocasião, fomos recebidos pelos moradores de um condomínio de residências temporárias. Eles estavam celebrando o Hina Matsuri, um festival dedicado às meninas. Chegamos ao local e estava tudo pronto para o preparo do mochi (lê-se “moti”), um bolinho feito com pasta de arroz, servido com molho shoyu ou anko, uma espécie de doce de feijão azuki.

Para fazer o mochi, o arroz precisa ser preparado lentamente numa espécie de fogareiro. Cozido, o arroz é levado para um pilão grande onde é socado por duas pessoas, com a ajuda de uma terceira que revolve a massa. Os demais comensais ficam em volta do pilão, marcando o ritmo e preparando-se para a sua vez de bater a massa que, ao chegar no ponto, vai para uma mesa onde é dividida em bolinhos e servida com o molho. Todos participam e todos compartilham o prato.

Naquele dia, percebi o quanto um simples bolinho de arroz grudento e sem tempero dizia muito sobre o Japão, um país que convive com a tragédia e com a necessidade de se reconstruir a cada geração. Engana-se quem pensa que, neste caso, a tecnologia de reconstrução é o mais importante. O preparo do mochi me ensinou que nada, nada mesmo, tem mais valor do que a organização comunitária.

(Roberto Maxwell vive no Japão desde 2005, onde atua como jornalista e artista visual. É particularmente interessado na cultura tradicional do país e no tema ‘identidades’. Conheça os trabalhos dele em robertomaxwell.info)