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Naoki Otake: arquitetura de comer

Naoki Otake em seu estúdio, no bairro da Consolação, em São Paulo

Naoki Otake em seu estúdio, no bairro da Consolação, em São Paulo Rafael Salvador

Visitamos o atelier do arquiteto Naoki Otake logo após seu retorno de Milão, na Itália, onde foi receber o prêmio internacional A’ Design Award, na categoria Espaço Interior e Design de Exposição.

Primeiro, perguntamos como foi a solenidade. “Era tudo muito glamuroso, diferente das premiações aqui no Brasil, que são mais informais”. A premiação foi na cidade de Como, distante cerca de 50 km de Milão, e foi regada a “muito Prosecco e muito queijo”. É uma premiação internacional, e designers e arquitetos do mundo todo estavam presentes, especialmente europeus e asiáticos. Naoki foi premiado pelo projeto do restaurante Nakka, dos Jardins.

Nakka: Projeto de Naoki Otake premiado pela A´Design Award

Nakka: Projeto premiado pela A´Design Award Lufe Gomes

Naoki já havia conquistado o prêmio da revista Casa Claudia, com o primeiro Nakka no Itaim. Sinal de que a casa está dando muita sorte para o arquiteto.

Quais foram as características que levaram o projeto à premiação? “É difícil saber, porque o corpo de jurados não divulga seus comentários”, pondera Naoki. “Talvez eles se surpreendam porque estamos num país tropical, propondo uma arquitetura com elementos japoneses”, suspeita o arquiteto.

A estética japonesa

Realmente, a arquitetura de Naoki Otake tem como destaque a inspiração no estilo sukiya da arquitetura mais tradicional japonesa, com ênfase em conceitos como o wabisabi, a estética da transitoriedade e da imperfeição que os japoneses amam.

Restaurante Clos, eleito um dos cinco mais bonitos restaurantes da cidade pela revista Época

Restaurante Clos, eleito um dos cinco mais bonitos restaurantes da cidade pela revista Época Lufe Gomes

Não existe um medo pelo estigma de ser categorizado como um arquiteto que faz arquitetura japonesa no Brasil? “Pelo contrário, amigos identificam características que são peculiares ao meu traço e ao meu design. De uma certa forma, estamos criando uma linguagem com os nossos projetos e isso me conforta, porque posso me posicionar esteticamente”, define Naoki.

São as escolhas dos materiais, tipo de linha que fazem o estilo de Naoki, mas ele garante que está sempre pesquisando novos elementos. “A nossa proposta é sempre contemporânea, mesmo numa arquitetura com inspirações japonesas”, reforça. “Nós não somos muito capazes de fazer coisas rebuscadas, procuramos a limpeza dos traços”.

Essa limpeza dos traços é encontrada na arquitetura japonesa tradicional, mas também na Bauhaus, movimento estético que surgiu na Alemanha em 1919 e foi responsável por criar os alicerces do Modernismo na arquitetura. “A arquitetura moderna tem uma base muito forte na arquitetura japonesa. Arquitetos consagrados como Mies van der Rohe parecem ter se inspirado na arquitetura japonesa”, constata Naoki.

Naoki Otake

Rafael Salvador

Com exceção da laje, todos os outros princípios da arquitetura modernista existem na concepção da arquitetura japonesa, como a planta e a fachada livres, janela em fila e até mesmo os pilotis.

A vivência nos mosteiros zen também contribuiu decisivamente para que Naoki entendesse a arquitetura por dentro. Este detalhe é muito importante, pois muitos estudam academicamente a arquitetura, mas poucos se aventuram a viver dentro dela, para entender o significado de seu universo espacial e a sua anatomia.

“Foram três anos vivendo dentro de um templo e, depois, trabalhando em um escritório de arquitetura em Tokyo, especializado em arquitetura tradicional, o que é uma atividade rara até no Japão”, relembra Naoki.

Enfim, trata-se de entender o japonês, sua filosofia de vida, para entender a arquitetura em sua plenitude.

Arquitetura de restaurantes

Arquitetura gastronômica é uma área de especialização de Naoki. Ele assina o projeto de restaurantes como Attimo, Clos, Kinoshita, Nakka, Toro, Hou, NoAr (o novo restaurante do aeroporto de Congonhas). Todas estas obras têm em comum a sintonia com as linhas limpas e contemporâneas.

Contudo, a alta gastronomia está em crise neste momento econômico no Brasil. Por isso, alguns clientes acabam procurando Naoki em busca de soluções para restaurantes com um tíquete médio mais baixo, mais sintonizado com o momento presente. Nesse contexto, lembramos do izakaya, o típico boteco japonês. Naoki ainda não projetou um izakaya, mas se o fizesse, não mergulharia na arquitetura típica de izakaya. “Simples, sim, bem japonês, não pode ser sofisticado, mas contemporâneo, acima de tudo”, adianta Naoki.

Jo Takahashi entrevista o arquiteto Naoki Otake

Jo Takahashi entrevista o arquiteto Naoki Otake Rafael Salvador


E a filosofia mottainai, o comportamento da contenção e da economia? “Sim, claro. Energia renovável, iluminação natural são fatores que costumo adotar nos meus projetos. Madeira maciça já saiu das especificações de projeto, sempre indicamos laminado, por conta da consciência ecológica”, revela o arquiteto. “Não só em projetos de arquitetura mas em tudo. A preocupação com o coletivo, novas maneiras de trabalhar, como o co-working, estão na pauta do momento”.
Kinoshita: o projeto predileto de Naoki Otake, rico em detalhes

Kinoshita: o projeto predileto de Naoki Otake, rico em detalhes Lufe Gomes

Um fator que chama a atenção nos projetos de Naoki é a luz. Há sempre muita luz natural, como é o caso do projeto do Clos. Mas também iluminação cênica, com o jogo de claro e escuro, bem na linha da estética wabisabi da arquitetura japonesa.

Por fim, já que cada obra realizada é como um filho para o arquiteto, pedimos que ele escolhesse o seu filho predileto. “O meu projeto completo é o Kinoshita”, revela. “Foi o primeiro grande trabalho que fizemos com o empresário e restaurateur Marcelo Fernandes. Houve um respeito muito grande por parte do cliente, em valorizar nossas propostas e opiniões. Foi aprovado na primeira reunião de apresentação do projeto. Aliás, isso tem sido praxe. Quase todos os nossos projetos comerciais são aprovados na primeira reunião”, comenta Naoki, não escondendo sua satisfação. “O Kinoshita é uma caixinha de joias. Cada canto do espaço foi detalhado, esmiuçado. O balcão, o jardim, a sala de tatami, a escada. Deu um enorme trabalho, mas foi extremamente gratificante. Um trabalho de artesanato, diria”.

Mas talvez o trabalho épico mesmo tenha sido o Clos, que em sua origem se chamava Clos de Tapas. Também iniciativa de Fernandes e situado a poucos metros do Kinoshita, a proposta de um restaurante espanhol contemporâneo foi precedida de uma viagem de pesquisa pela Espanha, onde foram incluídas visitas técnicas a grandes templos da gastronomia como o El Bulli de Ferran Adrià. “Os dias eram intensos na viagem. Almoços, jantares e muita pesquisa de arquitetura”, lembra Naoki. E compensou. O restaurante Clos foi eleito pela Revista Época em 2012, um dos cinco mais belos estabelecimentos da cidade de São Paulo.

Apesar da conjuntura brasileira, com o mercado retraído, Naoki é realista: o momento realmente não é o ideal para grandes vôos arquitetônicos. Mas, sua esperança por dias melhores está à flor da pele. Ressalta como exemplo, o restaurante Toro, também em São Paulo, desenvolvido a baixo custo e com resultado satisfatório no conjunto.