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Choque de culturas

JNTO


No balcão de um restaurante japonês de São Paulo, estávamos eu e o presidente de uma multinacional japonesa jantando. Percebi que ele, por mais tentasse disfarçar, estava preocupado ou pensativo com alguma coisa.

– Tem alguma coisa errada? Está incomodado com alguma coisa? – perguntei.

– Não é lá grande coisa, mas estou um pouco deslocado dentro da minha empresa. Faz alguns meses que estou no Brasil e sinto que minha equipe me respeita profundamente. Só que dá a impressão de haver um abismo entre nós. Não sei explicar direito – confessou o empresário.

– Acho que é uma coisa que todo estrangeiro sente. Uns mais, outros menos. As culturas, a formação e a vivência são diferentes em cada país. É natural que isso ocorra. Eu mesmo vou ao Japão e sou tratado como estrangeiro, mesmo falando japonês.

– Mas no seu caso, você fala bem e teve pais que te educaram como um japonês. É mais fácil para você.

– Sinto que é diferente, mas não tento me tornar um japonês, pois não consigo. Sou filho direto de japoneses, mas sou brasileiro. Falo alto, gesticulo, saio conversando com todos que estão a minha volta. Muitas vezes, os japoneses não compreendem e ficam assustados. Mas, sou assim. Acho que o senhor deveria agir como tal. O senhor é japonês. A não compreensão direta também pode atrair as pessoas. No meu trabalho com sakes, tentei buscar o máximo de traduções de outras bebidas para que o público pudesse entender. Até um certo ponto ajuda. Porém, acaba com a graça e perde um certo encanto. Por isso, parei de usar os termos “Super Premium” para designar um sake “Daiginjo”, por exemplo.

– Entendi. Acho que no meu desespero de tentar me entrosar com os brasileiros, talvez esteja passando do ponto. Antes de vir para cá, muitos me ensinaram que os brasileiros costumam se encostar na hora de conversar. Beijo e abraço na hora de se encontrar e de se despedir era lei. Quando fiz isso, tive a leve sensação de estranhamento.

– Vou te contar um episódio que eu e um amigo passamos em Tokyo. Fomos a um izakaya e a dona, uma moça muito simpática, nos atendeu no “estilo ocidental”. Na hora de tirar uma foto, sabíamos que não era de bom grado ficarmos encostados nas pessoas, ainda mais uma mulher. Só que eu senti uma mão no meu ombro e meu amigo sentiu na cintura dele. Na hora de ir embora, ela nos abraçou e ficamos sem reação. No táxi, foi o assunto da noite. Ficamos tímidos.

– Hahaha, que engraçado! É porque vocês não esperavam por isso.

– Exato. O melhor a fazer, na minha opinião, é se entrosar aos poucos, mas sendo você mesmo. Deixe um espaço e um tempo para eles se acostumarem. E o senhor também.

– Puxa, parece que você tirou um peso das minhas costas. Estava tentando ser outra pessoa.

– Acho que a harmonia é a palavra-chave. Deixe que um vá se derretendo no outro. Quando menos espera, a coisa se equilibra. Veja, daquele lado do balcão, um casal de brasileiros bebendo sake. É o mistério, é o Japão unindo um casal.

– Tem toda razão. Brindemos a harmonia, lenta e ao seu tempo.

adegao
ALEXANDRE TATSUYA IIDA, é um Kikisake-shi, especialista em saquê, certificado pelo SSI Sake Service Institute com sede em Tokyo, Japão. Proprietário da Adega de Sake, a primeira loja especializada em bebidas japonesas. Faz parte do corpo docente da ABS Associação Brasileira de Sommeliers, ministrando aulas e cursos de saquês, para profissionais e apreciadores. Promove degustações de saquês para o público aberto e treinamento de brigada, como a consultoria para a importação de saquês.
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