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Arquitetura de restaurantes japoneses

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Naoki Otake é o responsável pelo premiado projeto do restaurante Kinoshita Divulgação / Lufe Gomes

A história dos restaurantes japoneses no Brasil se mistura à própria história da imigração japonesa que se iniciou há pouco mais de um século.

Os primeiros estabelecimentos foram as próprias pensões que abrigaram as levas de imigrantes que passaram por São Paulo. Mais tarde, a partir da década de 20, alguns restaurantes se estabelecem no bairro da Liberdade e avançam lentamente aos bairros onde se concentravam as grandes colônias de japoneses que se estabeleciam na cidade de São Paulo.

Durante décadas (até o início dos anos 70), esses estabelecimentos eram comandados por japoneses e serviam quase que exclusivamente aos japoneses. Muitas vezes, ocidentais não eram bem recebidos, o que gerava certa insegurança e desconforto aos bravos brasileiros que, com todo direito, maior até que os dos próprios japoneses insistiam em se acomodar no sagrado balcão do sushiman. Quanta heresia!

Lembro-me quando da primeira vez que entrei, na década de 80, num dos templos do sushi, o lendário Komazushi, do mestre Takatomo Hachinohe, com uma amiga ocidental e fui ingenua e descompromissadamente sentando no balcão que estava livre, fui imediatamente expulso, sem palavras. Um severo gesto bastou para entender que não éramos bem-vindos ao balcão. Jantamos quietos e depois rimos muito… Assim eram as investidas dos brasileiros a alguns dos restaurantes japoneses.

A arquitetura destes primeiros estabelecimentos lembrava os bares populares japoneses, quase étnicos, apertados, mas erigidos a partir de mãos de carpinteiros e marceneiros genuinamente japoneses, ou seja, de grande qualidade técnica, apesar da estética duvidosa. Cabe lembrar que grande parte dos que imigraram para o Brasil eram de origem humilde; escolarizados, sim, mas humildes e sem grandes formações estéticas.

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O arquiteto Naoki Otake Divulgação
Já no final da década de 70, a culinária japonesa inicia seu processo de aculturamento, e iniciantes ocidentais começam a frequentar os restaurantes japoneses, primeiro como investigadores de uma nova culinária e depois como amantes de sua descoberta.

Coincidem com a década de 80 o início da troca do comando dos restaurantes japoneses para a segunda geração de nikkeis e o boom da culinária japonesa. Novos restaurantes iniciam suas cruzadas por outros recantos da cidade; muitos deles perdem ou mal nascem com a alma japonesa.

Neste contexto, há uma grande confusão estética, dos descendentes da segunda e terceira gerações que desconheciam a real estética japonesa e os ocidentais que a conhecem a partir de imagens étnicas equivocadas, quase pitorescas. Confunde-se a estética japonesa, resumindo-a a adereços como lanternas e paredes vermelhas! Que casa japonesa tem uma parede vermelha?

Equivocam-se com a cor da representação do Sol Nascente à cartela de matizes cromáticas que são ricas aos japoneses, os tons de terra, verde e azul profundos. Este equívoco se repete até os dias de hoje em restaurantes onde somos recebidos por garçons e sushimen vestidos de túnicas com ideogramas e fitas na testa à la Ralph Macchio como Daniel san em Karate Kid. Tudo culpa de Hollywood!

Recentemente, um bom grupo de arquitetos tem desenvolvido belos projetos de restaurantes japoneses. São arquitetos, descendentes ou não, mas com grande conhecimento da estética e da alma nipônica. Cada um com seu traço, criando atmosferas que condizem com o nosso tempo e a finalidade da construção.

Também nosso escritório tem feito alguns projetos de restaurantes japoneses em São Paulo. Neles, procuro trabalhar com materiais que sejam da cultura construtiva japonesa e agradáveis aos sentidos, como madeira, pedras, palhas, papéis, a luz e os jardins. Os espaços que criamos não podem ser mais importantes que a refeição que será servida. O espaço ideal é aquele que passa despercebido, mas que oferece uma atmosfera perfeita. A arquitetura deve ser sensorial.

Respeitamos a fluidez dos espaços das casas tradicionais japonesas que não possuem separações físicas fixas. Os espaços são dinâmicos, criando leituras para cada situação.

Os japoneses criaram a estética zen minimalista a partir de suas próprias teorias filosóficas, como o vazio e a estética do wabi sabi, em que a imperfeição perfeita da natureza é valorizada.

Há décadas, o minimalismo japonês imprime influência significativa na estética ocidental. A dualidade e a tensão existente nos espaços vazios são a alma da estética japonesa. Procure fazer a leitura do espaço vazio não como algo faltante, mas a tensão que preenche o espaço. Em sua próxima incursão a um restaurante japonês procure fazer a leitura espacial com esta ótica. Os sabores serão outros.

Naoki Otake é arquiteto. Entre outros projetos premiados de seu escritório, o trabalho realizado no restaurante Kinoshita, em São Paulo, foi vencedor do Prêmio Casa Cláudia – Restaurantes em 2012 e do V Grande Prêmio de Arquitetura Corporativa em 2008.

Site do escritório Naoki Otake Arquitetura: www.naokiotake.com.br.