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Mercearias orientais

Henrique Minatogawa


A administração de uma loja é um desafio constante tanto para empreendedores iniciantes como para os empresários já estabelecidos. A atuação em um mercado de nicho, como é o caso das mercearias orientais, tem algumas características próprias.

Fernando Kajihara e Elisa Suto são sócios na Mercearia e Conveniência Dai Suki, inaugurada em outubro de 2016 em São Paulo. A ideia é reproduzir o conceito de lojas de conveniência japonesas, com adaptações ao mercado brasileiro. Ambos viveram por alguns meses no Japão, período em que foram assíduos frequentadores do “konbini”, como são chamadas as lojas do segmento no Japão. “Buscamos muitas referências, para ter a cara de konbini mesmo, como no estilo da fachada”, explica Fernando, que é designer por formação.

Antes de abrir efetivamente a loja, houve a fase de preparação. “Pesquisamos muito e participamos de feiras e palestras do Sebrae-SP, além de cursos online. O que efetivamente fez a diferença foi consultar amigos empreendedores que têm lojas, restaurantes e cafés”, explica Fernando.

‘Antes de abrir a loja, pesquisamos e estudamos muito’, diz Fernando, sócio da Dai Suki Henrique Minatogawa


A loja está localizada no bairro do Paraíso, região com intensa atividade comercial na cidade de São Paulo. “Muitos clientes falaram que sentiam falta de uma loja assim no bairro, pois agora não precisam mais ir até a Liberdade para comprar um ou dois produtos”, conta Fernando.

Nas prateleiras, estão principalmente produtos alimentícios, como arroz japonês, furikake, nori, chá e doces diversos. Segundo os sócios, o onigiri (bolinho de arroz) é o item mais vendido. Na frente da loja, há uma escola, cujos alunos compõem boa parte da clientela. “Eles consomem muito bento [a “marmita japonesa”], onigiri, balas, salgadinhos e nori”, diz Elisa. Entre os clientes moradores da região, a maioria é composta por descendentes de japoneses que procuram itens do cotidiano, como arroz e shoyu.

Além dos produtos alimentícios, a loja tem uma seção de presentes e de papelaria. Para acentuar o lado de “conveniência”, também oferece serviço de impressão de fotos digitais e um balcão para consumo dos alimentos na hora.

Entre as dificuldades de um primeiro negócio, estão o desconhecimento de produtos e a natural inexperiência. Ainda, nenhum dos dois sócios vem de uma família com tradição no comércio. “Estamos pesquisando e aprendendo. Nossa ideia é, daqui a alguns anos, abrir filiais, crescer aos poucos”, contam os sócios.

Para acentuar o conceito de conveniência, a Dai Suki conta com setor de papelaria Henrique Minatogawa


A inspiração nas lojas japonesas não é apenas estética. “A educação dos japoneses é algo fora do comum, especialmente os atendentes de lojas. É isso que a gente tenta replicar aqui. Sempre atender com boa vontade e procurar ajudar os clientes”, afirma Elisa.

Força na tradição

A Mercearia Enman tem mais de quinze anos de operação. Atualmente, conta com duas unidades, ambas no bairro da Saúde, onde há alta concentração de nipo-descendentes.

“Geralmente [os consumidores] são orientais, da terceira idade, e são clientes que vêm todos os dias na loja”, explica Naomi Maeda, sócia com mais três irmãos. “Tem os não descendentes, que são 20% do público e começou a aumentar. Hoje tem muita divulgação pela internet, muitos restaurantes orientais. As pessoas estão conhecendo mais e consumindo produtos como arroz, nori, shimeji e gyoza. O público jovem representa um percentual de 15%. Na faixa da segunda idade, 50%”, completa.

Na região, há muitos condomínios, o que favorece a procura de ingredientes para preparar a refeição em casa, como arroz japonês, shoyu, tofu, algas e ingredientes para preparar sushi. “Cada vez mais, as pessoas de terceira idade estão desaparecendo. Muitos clientes vêm perguntar para mim [como preparar um prato japonês]. Eu faço cursos de pratos básicos, sushi etc. e experimento em casa para poder passar adiante”, continua Naomi.

Consequentemente, existe um contato mais próximo entre vendedor e consumidor. “Não é só vender um pacote de nori, é preciso saber como prepará-lo. Ou qual shoyu é mais indicado para cada prato”, afirma Naomi. “Por isso é muito importante que o proprietário esteja presente, pois naturalmente vai querer explicar, indicar alguma coisa. Vai saber o que vende mais e o que vende menos.”

A família tem tradição no comércio. Desde crianças, Naomi e os irmãos ajudavam no mercado do pai, em meados dos anos 80. “Meu pai era um comerciante nato”, lembra Naomi. Com ele, os filhos desenvolveram suas habilidades no ramo.

A Enman, na Saúde, atende principalmente moradores da região Henrique Minatogawa


Em razão das crises econômicas pelas quais o país passou naquele período, o negócio fechou. Em seguida, a família iniciou outro empreendimento, mas que não vingou. Então, em 2000, Naomi e uma das irmãs decidiram retornar ao segmento de mercados.

Inicialmente, elas vendiam itens comuns do dia a dia brasileiro. Pouco a pouco, começaram a aparecer representantes comerciais oferecendo produtos orientais para venda. Tais produtos (principalmente ingredientes para o preparo de pratos japoneses) começaram a ter boa aceitação por parte dos consumidores, formados sobretudo por moradores dos condomínios próximos.

Para Naomi, a principal dificuldade é lidar com produtos importados. “Como a compra é baseada em dólar, nesta época, é preciso ter muito cuidado. De alguns anos para cá, procuramos não aumentar muito o leque de produtos, focar no básico”, explica Naomi. “As importadoras também não trazem mais tanta variedade. Começamos a nos adaptar ao perfil atual, com produtos nacionais, que têm boa qualidade e preço competitivo”, completa.

Atualmente, a Enman tem outra unidade, localizada no interior do Imigrantes Hortifruti, também no bairro da Saúde. Naomi e seus três irmãos administram ambas.

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