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Bar, Anmitsu e Frutas

Numa conversa de bar com amigos, discutíamos sobre as diferenças da cultura alimentar do nipo-brasileiro e do japonês, até que a sobremesa chegou. Ficamos em silêncio, pois era o majestoso anmitsu, uma sobremesa de verão em que se usa as frutas da estação, kanten (gelatina de algas) e anko, muito comum em restaurantes japoneses, quando não a única.

Voltando à degustação, comecei a saboreá-la até que a minha cara simplesmente retorceu! Um dos amigos riu e perguntou se estava ruim e eu respondi que não, mas que as frutas estavam muito ácidas! Foi aí que a discussão sobre frutas se estendeu durante a noite toda.

Uma das principais observações é o quão caras são as frutas no país do “Sol Nascente”, enquanto em nossas feiras vemos frutas e verduras vendidas a “preço de banana” ou até mesmo sendo jogadas fora. Lá, são caríssimas e muitas são dadas como presente de casamento. Para se ter uma ideia, uma caixa com dois cachos de uva da variedade Ruby Roman cultivada na província de Ishikawa podem chegar a custar 550 mil ienes, mais ou menos 15 mil reais! Claro que esse é um caso muito específico em que a fruta é vendida em caixa artesanal e recebe tratamento especial desde o início da produção.

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Foto: JNTO
Deixando o susto com os preços de lado, concordamos que, no Japão, não precisamos nos preocupar muito em escolher as frutas, mesmo no mercado comum, afinal, todas elas possuem um padrão. E para cada padrão, é dado um preço correspondente. Não é raro ver três pilhas de pêssegos: os mais caros geralmente são maiores, mais doces e suculentos, e os mais baratos, menores e menos doces (não que os mais baratos sejam ruins).

Dificilmente encontraremos frutas ou qualquer tipo de alimento ruim sendo vendido por lá, pois os consumidores japoneses são exigentes e se não gostarem não irão mais comprar. Isso forma um círculo virtuoso, já que incentiva o produtor, intermediador e consumidor a ter bons produtos sempre.

Terminei meu anmitsu meio frustrado devido ao sabor ácido. Tudo bem que tinha o sorvete e o anko para contrapor, mas acredito que se tudo estivesse com seu sabor característico, a experiência seria diferente. Sentiríamos todos os sabores se harmonizando e não precisaria de ingredientes com alto nível de doçura para balancear a falta em outros.

Enfim, nos divertimos, trocamos boas e más experiências e mal posso esperar a próxima conversa de bar.

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LUIS YSCAVA é graduado em Tecnologia em Gastronomia pelo Senac, com especialização em escolas da Suíça e Tailândia. Iniciou a carreira em restaurantes no Japão e soma ao seu currículo a vivência em países da Europa e Ásia. Atualmente é consultor gastronômico e chef do Hidden by 2nd Floor.

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